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A mulher mais bonita do mundo I

A mulher mais bonita do mundo I  
Victor José
From:Victor José
Subject:A mulher mais bonita do mundo I
Date:Mon, 24 Jan 2005 01:37:44 +0000

Nunca fui tão feliz como durante essas noites. Fechava os olhos e
via-a dentro de mim. A mulher mais bonita do mundo. E ia conhecendo
mais do seu rosto, ia conhecendo mais do seu olhar que me via e que
brilhava. Ficávamos durante horas só a olharmos um para o outro. Às
vezes, fechava os olhos para a ver quando era de noite. Depois, havia
uma luz que começava lentamente a atravessar-me as pálpebras. Abria os
olhos, e era já de dia. Naquelas horas, conhecemo-nos. Eu via uma
mulher que me olhava: os seus olhos atentos a cada brilho com que os
meus olhos interiores lhe diziam que qualquer coisa na beleza ou no
mundo me conduzia para ela. Naquelas horas, sem falarmos,
construíram-se certezas dentro de nós. Ainda hoje o não sei explicar.
A beleza, como o amor, são mistérios proibidos. Naquelas horas, a
beleza e o amor eram simples. Nos nossos olhares, abriam-se caminhos
para a beleza e para o amor. Eu olhava para ela no mesmo momento em
que ela olhava para mim. Esse era o mistério, o milagre, o labirinto
simples que usámos para nos conhecermos e para dizermos palavras de
silêncio: palavras maiores, profundas, abismos, palavras que eram de
sangue e que ali, eu um rapaz, ela uma rapariga, pareciam palavras de
sol terno, e de sol suave, e de sol brando. Sei hoje que, durante
aquele tempo, amava e era amado. Durante aquele tempo, a beleza da
mulher de luz que estava dentro de mim, tinha-se misturado com esse
sentimento. Esse sentimento. Esse sentimento que era um entusiasmo a
mandar em todos os meus instantes, uma febre de onde não conseguia
sair mesmo que quisesse, esse sentimento que era uma palavra: amor:
uma palavra estranha porque era importante, eu achava que era uma
palavra importante, mas sabia que era uma palavra que eu, desde os
meus dezasseis anos, tinha tornado vulgar. Esse sentimento que era uma
palavra, e eu perguntava-me a mim próprio sobre quantas pessoas a
teriam tornado vulgar. Eu sentia que sentia totalmente esse
sentimento. Amava e era amado.



in Uma Casa na Escuridão (excerto), José Luís Peixoto
   

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